quinta-feira, outubro 29, 2009

Manifesto Anti-Dantas

Sempre delicioso!... e absolutamente actual! :)

"Basta pum basta!!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra! Pim!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas é Dantas!

O Dantas é Júlio!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

O Dantas é um ciganão!

Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele-próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

O Dantas nu é horroroso!

O Dantas cheira mal da boca!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!

Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:

A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!

A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.

A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.

A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.

Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.

E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda... Quem está aí?... E de candeias apagadas?

- Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror... E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d'alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.

Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço d'interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia d'investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber - que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.

Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.

A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.

Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!

Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.

E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecelidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!

E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!...

E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!

Morra o Dantas, morra! Pim!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!

Morra o Dantas, morra! Pim!"


José de Almada Negreiros
Poeta d'Orpheu
Futurista E Tudo

1915

PS: Declamação por Mário Viegas

terça-feira, outubro 27, 2009

Le midi #13


Le midi #13, originally uploaded by Arkadius Zagrabski.
By Arkadius Zagrabski

segunda-feira, outubro 26, 2009

"Pensar, ainda assim, é agir. Só no devaneio absoluto, onde nada de activo intervém, onde por fim até a nossa consciência de nós mesmo se atola num lodo - só aí, nesse morno e húmido não-ser, a abdicação de acção competente se atinge.

Não querer compreender, não analisar... Ver-se como à natureza; olhar para as suas impressões como para um campo - a sabedoria é isto."

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

domingo, outubro 25, 2009

sexta-feira, outubro 23, 2009

quinta-feira, outubro 22, 2009

PUBLICO.PT

PUBLICO





O arquitecto português David Mares, de 26 anos, venceu ontem o Prémio do Público num concurso internacional de design de abrigos, promovido pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque, com um modelo que conjuga aço, madeira e cortiça.


In Publico.pt

quarta-feira, outubro 21, 2009

Leisure

What is this life if, full of care,
We have no time to stand and stare.


No time to stand beneath the boughs
And stare as long as sheep or cows.

No time to see, when woods we pass,
Where squirrels hide their nuts in grass.

No time to see, in broad daylight,
Streams full of stars, like skies at night.

No time to turn at Beauty's glance,
And watch her feet, how they can dance.

No time to wait till her mouth can
Enrich that smile her eyes began.

A poor life this if, full of care,
We have no time to stand and stare.

By 
Henry Davies

terça-feira, outubro 20, 2009

"I went to the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life. To put to rout all that was not life; and not, when I had come to die, discover that I had not lived."

Henry David Thoreau

segunda-feira, outubro 19, 2009

Impus a mim mesmo uma condição: não passar duas vezes pela mesma estrada.


João Alves Dias

"Até àquele instante eu viajava sem saber porquê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela primeira vez essa questão. "O que faço aqui?" Pensei em voltar para trás. Porém tinha caminhado de mais. e já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê."

José Eduardo Agualuda
Passageiros em Trânsito, do conto O Ciclista

sexta-feira, outubro 16, 2009

Urban silence...


vancouver 528, originally uploaded by Rick E Dick.

By Rick E Dick

quarta-feira, outubro 14, 2009

Freeze!!!

terça-feira, outubro 13, 2009

Primeira chuva do ano

13/Outubro/2001

Era uma sonho aquela árvore que, por entre as brumas, fazia baloiçar os seus ramos. Não podia ser real... Flocos de núvens passavam lentamente mesmo ao nível dos meus olhos. Rendilhados. Quase transparentes. Cheiravam a húmido.

Do outro lado da janela fechada formavam-se gotas que não eram de chuva. Pareciam volatilidades das memórias que vêm e vão sem que nunca cheguemos a ter a certeza se existiram de facto e caso o tenham feito, quais os seus contornos, formas, dimensões, dureza...

Os ramos daquela árvore eram traços desmanchados. Formas equivocadas. Esculturas delirantes de um artista bêbado. Hastes retorcidas davam origem a troncos mais grossos. Voltas, curvas, ir, voltar, indecisão. Já quase não tinha folhas. O Outono anunciava-se. Apenas meia dúzia delas, baloiçando-se ao vento. Um último grito de coragem. Em breve cairiam como as outras. Teria que ser assim.

As núvens andavam agora mais depressa. Deixavam de ser passeantes de Domingo. Corriam apressadas na via rápida da cidade. Desfilavam perante os meus olhos, velozes, cada vez mais opacas. Ao longe conseguia distinguir o céu mais escuro. "Vai chover", disse uma voz atrás de mim.

A janela deu um baque surdo, abanando nos caixilhos. As formas retorcidas agonizavam em gemidos lamentosos. Cada vez mais as gotículas embaciavam-me a vista. Uivos e gemidos.

- Fecha a cortina e acende a luz. - ouviu-se ao fundo.

Parecia um sonho, o Inverno a materializar-se lá fora quando ainda ontem um dia de Verão acariciava a alma.

Grossos pingos dissiparam os rolos de nuvens apressadas. As chuva purifica a alma e as coisas. Praças, ruas, casas lavavam-se assim dos muitos meses de pó.

A escultura retorcia-se ainda. Velha. Talvez cansada. Quntos anos teria? Crescera imperceptivelmente desde que eu a observava ali daquela janela. Parecia um velho carcomido e sábio. Aquele sábio em particular tinha a face nudosa, coberta de musgos e rugas. Era feio, desolador e triste. E no entanto... ele sabia as histórias e o segredos que nunca seriam contados.

Também ele era purificado por aquela primeira chuva do ano.

Parecia um sonho a tempestade...

segunda-feira, outubro 12, 2009

"Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro e ali ficou."

José Eduardo Agualusa do livro de contos "Passageiros em trânsito"

In free translation this means: 
" I woke up with the first light. The morning landed on my shoulder, as a bird and stayed there." 
Beautiful, isn't it?

domingo, outubro 11, 2009

Gutenberg Project

Fall is here... and with fall it is time for lazy sundays reading books in the sofa!!! This thought made me think of Gutenberg Project of which I got acquainted recently. It is about books, free books... and everyone can help!

This project started in 1971 with the purpose of encouraging the distribution of books. Today that is done through books available for download in all sorts of formats, for FREE.

I just loved the idea! Imagine, getting all the books available online for whenever we fancy read that last paragraph and we do not have the book around, or for when we would like to browse through an old classic which we cannot find anymore in the book stores, or just for all the people that do not have money to buy books but like reading.

In order to make this project to happen, they need volunteers. The work is quite simple: you get a scanned page, which was already been converted into a word processor. The conversion does not work perfectly so the work of the volunteers is simply to correct the mistakes of the process.

Simple isn't it? If you would like to know, to help or just to get some free reading on a lazy sunday, check: www.gutenberg.org.

Have a good sunday full of words! :)

sábado, outubro 10, 2009

Life's a journey!


sexta-feira, outubro 09, 2009

Irving Penn morreu...




quinta-feira, outubro 08, 2009

Mood Booster!

Os dias estão a tornar-se pequenos, cinzentos e molhados. Começa a ser tempo de mantinha e chocolate quente em frente da televisão!...

Entretanto... caso estejam a sentir-se um pouco melancólicos com a mudança da estação, a música que se segue vai-vos colocar um sorriso na cara!

GARANTIDO! :)



Jolie Coquine de Caravan Palace

quarta-feira, outubro 07, 2009

Da morte de um Deus ou do nascimento de um louco...

O Sangue das Palavras 
1

O poeta que nasce é uma criança
parida pela água torturada
uma nave que surge   uma nuvem que dança
ao mesmo tempo livre e condensada.

O poeta que nasce é a matança
da palavra demente e enjeitada
que o chicote do poema torna mansa
depois de possúída e mal amada.

Quando o poeta nasce a madrugada
aperta os versos num abraço rouco
até que a noite fique esvaziada.

E enquanto das palavras pouco a pouco
surge a forma perfeita ou agitada
no mundo morre um deus ou nasce um louco.

Ary dos Santos

domingo, outubro 04, 2009

Súbita voz lhe fala: 'Ao pé de ti,

"Súbita voz lhe fala: 'Ao pé de ti,
Eis-me outra vez ainda! O amor vendado
Dirigindo meus passos, descobri
Teu vulto; e vim no zéfiro da tarde.
Deixei por esses montes meu rebanho...
Por lá, deixei também o meu sossego.
Não me sai da lembrança o teu estranho
Aspecto encantador, que me seduz.
Não te posso esquecer! Tua figura,
Tuas palavras doidas me atraíram...
E vim na doce brisa que murmura...

- Este abraço e este beijo te perseguem..."

Teixeira de Pascoaes
Marânus - Marânus e a Paisagem

quarta-feira, setembro 30, 2009

Port of Amsterdam

Two versions... the same powerful song.



sexta-feira, setembro 25, 2009

Europa by Lars Von Trier

"You will now listen to my voice. My voice will help you and guide you still deeper into Europa. Every time you hear my voice, with every word and every number, you will enter into a still deeper layer, open, relaxed and receptive. I shall now count from one to ten. On the count of ten, you will be in Europa. I say: one. And as your focus and attention are entirely on my voice, you will slowly begin to relax. Two, your hands and your fingers are getting warmer and heavier. Three, the warmth is spreading through your arms, to your shoulders and your neck. Four, your feet and your legs get heavier. Five, the warmth is spreading to the whole of your body. On six, I want you to go deeper. I say: six. And the whole of your relaxed body is slowly beginning to sink. Seven, you go deeper and deeper and deeper. Eight, on every breath you take, you go deeper. Nine, you are floating. On the mental count of ten, you will be in Europa. Be there at ten. I say: ten."




(...)

In the morning, the sleeper has found rest on the bottom of the river. The force of the stream has opened the door and is leading you on. Above your body, people are still alive. Follow the river as days go by. Head for the ocean that mirrors the sky. You want to wake up to free yourself of the image of Europa. But it is not possible.

quinta-feira, setembro 24, 2009

O Poema

O poema me levará no tempo
Quando eu não for a habitação do tempo
E passarei sozinha entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen - Livro sexto

quarta-feira, setembro 16, 2009

Vida no Campo

Nunca tinha visto um pinto!... Quando se cresce no meio da cidade esquece-se de como as coisas começam: do pricípio antes das caixas de esferovite em que coberta com solofane jaz uma carne branca e sem história.


No campo, descobri como é o princípio. A mãe galinha  e os seus pintainhos amarelos e frágeis. Os galos que cantam. Os adolescentes que  penicam aqui e ali, fazendo as cristas vermelhas sobressairem sob os raios de sol.


É gira a vida assim ao Sol! As complexidades resumem-se a nascer, crescer, procriar e  sobreviver. Um abrigo, comidinha boa e as penas da mãe. Simples não é?

segunda-feira, setembro 14, 2009

Porto


Alexandra Leote (Sep'09)

Descobrir uma cidade através os olhos dos amigos que nela viveram e cresceram é uma forma incomparável de conhecer um local. Os meus amigos ensinaram-me que entrar no Porto tinha que ser ao som desta música! 

Porto Sentido - Rui Veloso 

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte 
és cascata, são-joanina 
dirigida sobre um monte 
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas 
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

[refrão] 
Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

terça-feira, setembro 08, 2009

Parágrafos finais (I)

Os melhores debates começam assim: noite dentro, quando os contornos das coisas se perdem. Este debate falava de últimos parágrafos, das frases colocadas imediatamente antes do movimento solitário de fechar um livro, do momento em que se escuta ao fundo a voz das personagens que se esbate e o silêncio que preenche o espaço. 

Eça era um mestre e o "Mandarim" é uma das jóias raras que ele nos deixou. É também um dos meus parágrafos finais preferidos. Acaba assim:

"Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus milhões ao Demónio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os reparta...

E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: «_Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim_!»

E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idea: que do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartaria até às ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Império da China, nenhum Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses
supprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, creatura improvisada por Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irmão!"

Eça de Queirós, "O Mandarim"

domingo, setembro 06, 2009

Há cidades cor de pérola onde as mulheres... Helberto Helder

Passou tanto tempo desde que aqui escrevi! No entanto, este poema é demasiado belo para eu o deixar passar em vão. Por Herberto Helder...


"Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

MuIheres que eu amo com um desespero 

fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente."

terça-feira, janeiro 08, 2008

Hora

Apaixonei-me por um poema da Sophia de Mello Breyner e resolvi publicá-lo aqui. Lindo, não é:

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner

Ver mais poemas em: http://www.astormentas.com

sábado, julho 08, 2006

Is everybody in? The ceremony is about to begin.

quarta-feira, abril 12, 2006

What life is this where there is no time to stand and stare?...

quarta-feira, março 29, 2006

Partidas

É uma sensação estranha ver os amigos partir. Significa uma época que acaba. Significa um tempo que passou que deveriamos ter aproveitado talvez mais, onde deveriamos ter feito mais coisas, dito mais, vivido mais.

Depois... o adeus. Um abraço. A aparência de normalidade quando sabemos que as coisas nunca voltarão a ser o que eram...

Dentro de nós temos a certeza que as amizades não são feitas de espaço ou tempo, mas há sempre o medo que o espaço ou tempo tornem distantes pessoas que antes se assemelhavam. Tinham-me disso isso antes. Que as pessoas destes lugares nunca ficam por muito tempo. Chegam. Partem. Com cada amizade vem a certeza de um adeus. Que assim seja. Prefiro a nostalgia da partida, à angústia da mesma. Boa sorte D. Até breve!

sexta-feira, março 24, 2006

Skalpel

Bits and pieces and patches mixed together, kind of in a mix marginalized way

- We may expect quite a lot of noise.
- Probably, they are going to play some British records.
- That shouldn’t be too bad.

Let them play that jazz records and dance all night if they want!

domingo, março 19, 2006

Impressões da Lituânia

Vilnius - Lituânia
26/Fev/2006

À chegada, na minha mente, a Lituânia era apenas um país ligado à antiga URSS, mais próximo da Rússia do que do mundo ocidental, preenchido por uma língua indecifrável, longos casacos de pele e chapéus divertidos que evocavam memórias inconscientes dos velhos filmes russos.

VILNIUS
Na realidade, Vilnius lembra uma deliciosa cidade de bonecas russas. F. dizia-me que era antes um conto de Hans Christian Andersen. Vilnius é feita da matéria da irrealidade dos seus túneis, casas baixas e estradas irregulares cheias de neve, das matronas russas e bebes rosados. Parece um pouco um cenário de um filme, onde não é certo que para lá das fachadas exista alguma coisa.

Um olhar mais próximo e atento revela, contudo, uma outra realidade: essas pequenas casas com portões que podem não levar a lugar nenhum ou ao outro lado da cidade escondem sítios interessantes ao nível de qualquer capital europeia. São cafés "trendy" decorados com modernas peças de design e arte contemporânea; boutiques de marca; pequenas lojas de “délicatesses” recheadas de iguarias; lojas de âmbar, cujas pedras aprisionam pedaços de história; lojas de linho.

AS PESSOAS
Nas ruas nota-se o choque de duas gerações que me faz lembrar Portugal há alguns anos atrás. Por um lado, a geração mais velha, quase analfabeta, que se mantém apegada às suas velhas tradições; por outro, a nova geração, orgulhosa, com estudos, muitos com experiências internacionais, com apetite por marcas e moda. Nas ruas, junta-se ainda um outro elemento dissonante: essas mesmas jovens vestidas à última moda, vêem nos jovens ocidentais passaportes fáceis para o dinheiro e para a Europa. Esta é uma troca que tende a beneficiar apenas uma das partes. E suspeito que não são elas… Muitas vezes lindas de morrer, arrastam-se pelos bares com o ar fácil de prostitutas de rua. Não o são. Os ocidentais, atraídos por estes e outros encantos (o país não se coíbe de usar a beleza das suas mulheres como uma forma de atracção turística) não se fazem rogados aos avanços das loiras esbeltas. Mas eles partirão e elas ficarão, num ciclo que é na sua essência triste e decadente.

F. desenvolveu ao longo da sua estadia em terras de leste uma teoria sobre os homens e as mulheres que eu não resisto a partilhar. É de conhecimento comum que as mulheres de leste são bonitas. Ora... a razão porque isso acontece, segundo F., é porque Deus criou um incentivo aos homens desses países onde o clima é tão agreste e o trabalho tão duro, a eles se mantivessem vivos. E fê-lo através das mulheres bonitas. Pergunta minha... como se aplicará esta teoria ao Brasil? Comentário meu... efectivamente a criação foi benevolente apenas para um dos sexos, já que o mínimo que se pode dizer dos homens é que eles são feios!

O FRIO
F. tinha-me, caridosamente, avisado que iria estar muito frio. Claro que uma coisa sabê-lo e tê-lo em consideração enquanto se fazem as malas, outra é enfrentar o frio seco de 10ºC negativos. A pele queima, as bochechas ficam vermelhas, os olhos ardem. Mesmo em locomoção é necessário entrar de quando em vez em locais quentes, onde se sente o calor restabelecer o seu sítio correcto no interior de nós.

O LAGO
V. levou-nos numa excursão a Trakai, uma pequena vila não muito longe de Vilniu, no que é, aparentemente, programa usual de sábado à tarde para uma família lituânia. A excursão tinha um motivo adicional de interesse: o de irmos andar num lago gelado. Para qualquer povo do sul da Europa, esta ideia tem o seu quê de sobrenatural. Por definição, nos lagos não se anda, nada-se! No entanto, o facto é que andámos durante largos minutos naquela superfície lisa, branca e gelada. Cavámos na neve um buraco até encontrarmos o gelo da superfície da água para sermos capazes de acreditar que no Verão ali seria um aprazível lago, onde as famílias se banhariam, e onde os barcos agora presos nos ancoradouros gelados cortariam as águas.

À partida, Vilnius deixou-me uma vontade de ir conhecer mais, não apenas da Lituânia mas dos outros países dos Balcãs e do Báltico. Não estão assim tão longe de nós, mas ainda nos deixam o sabor agradável da surpresa de quando somos confrontados com outras culturas.

segunda-feira, março 13, 2006

Lust for life

Lust (noun): passionate desire for something; sensual appetite regarded as sinful.
Life (noun): the state of being alive as an human being; the period between the birth and dead of a living thing.

Para os das crises dos 20 e tal e afins: quando estiverem a enfrentar a lista infinita de e-mails por ler, lembrem-se que é vossa a decisão de saborear a vida como se saboreiam outros pecados: apaixonadamente.

Boa semana!

domingo, fevereiro 19, 2006

Diferente FM

Ando em fase de músicas do mundo... Os sons idênticos dos nossos FM habituais começaram-me a encher de um spleen musical. Não poderia viver sem eles, mas é perder demasiado viver apenas com eles. E foi assim que descobri todo um mundo de sons, ritmos e texturas, bem longe do meu preconceito àcerca de folclores de outras terras.

Dito isto... deixo uma sugestão com um nome impronunciável e um ritmo incontido para dias felizes: GINKOBILOBA.

PS- Obrigado S. por estes novos mundos.

domingo, fevereiro 05, 2006

As cidades e as suas manias

Com o passar do tempo, à força dos passos dos seus habitantes, das linguas e das culturas que as povoam, as cidades começam a ganhar humores e manias como os seres humanos. Humanizam-se e expressam-se através daqueles que as habitam. Genebra não escapa à regra... Cidade onde 54% dos habitantes possui um passaporte estrangeiro, onde se houve falar com a mesma frequência francês, inglês, português, espanhol ou italiano), onde a vida parece perfeita nos reflectos dourados das suas lojas de luxo. Cidade que flutua entre o afã contido do verão (nunca se poderá comparar com a "movida" dos países latinos!) e a deserção dos seus habitantes no Inverno em busca das estâncias de ski, da neve e do Sol. Essa mesma cidade começa o ano com uma vontade nova. Por todo o lado, a quase qualquer hora do dia e independentemente das temperaturas, por vezes negativas, se vê gente encapuçada, vestida com calças de licra, e camisolas quentes... a correr. Correm para todo o lado, vindos de todo o lado. São jovens, mas também velhos. Muitos homens e bastantes mulheres. Resistentes ao frio e tenazes de espírito, as conversas ao almoço, depois do tradicional: "Então para onde foste skiar no fim de semana?" versam regimes alimentares e calendários de treino. Há os dias de repouso, os dia da corrida longa, os dias do desporto intercalar. O que dizer?... A Grande Maratona de Genebra está à porta. O que significa que acontecerá em Maio... 42.195m são muito metro e exigem tempo, tenacidade e dedicação. A contagem decrescente sente-se na cidade e no espírito das pessoas E assim genebra não só se veste engalada para receber a corrida em si, mas observa orgulhosamente os seus habitantes que lutam por não a desapontar. Afinal... quantas pessoas no mundo podem dizer que correram a maratona e a terminaram?

segunda-feira, janeiro 16, 2006

domingo, janeiro 08, 2006

Snowboard

O cenário que me tinham pintado era paradoxal, e apenas podia indicar um caso de masoquismo extremo para aqueles que o praticavam. Os conselhos iam desde as simples regras de segurança (arranja um capacete) até às últimas formas de protecção (Talvez algo fofo para o rabo possa ajudar...). As expectativas não podiam ser mais baixas: nódoas negras, possibilidade de pulsos partidos, dores por todo o lado. Mas no fim, todos terminavam com um sorriso encantador, dizendo: "Vais adorar!"

Foi portanto, numa mistura de sentimentos que me levantei às 5h30 da manhã para a famosa aula de snowboard...

Hoje, apesar das piores expectativas não se terem confirmado, os meus movimentos são lentos, com dores em músculos que não imaginava ter e pesadelos com a perspectiva de simples mudanças na cadeira. Enfim... Aquilo que ninguém me disse é que um dia passado na montanha ao ar livre é absolutamente libertador e repousante e hoje, apesar das dores penosas pelo corpo todo, tenho a mente descansada e a doce sensação que o fim de semana durou eternidades. Venham mais dias assim...

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Feliz 2006!

Sorri, enquanto olha pela janela por onde entram rodos de luz. Na mesa de madeira à sua frente está um "Moleskine" preto com uma caneta por entre as folhas. A sua idade é imprecisa, mas a sua cabeça é já coroada por um manto de finos cabelos brancos. Não nos é dado acesso aos seus pensamentos, mas no topo da página aberta encontra-se escrito com uma letra inserta, quase infantil, 2006. Depois, depois... muitas páginas escritas com muitas canetas diferentes. Nota-se que aquele pequeno caderno que jaz ali parado no tempo foi plenamente manipulado. Por entre as folhas nota-se o volume espesso de fotografias e outros papéis ali colocados na esperança de que não se perdessem. Era o futuro de hoje feito passado e memória.

A expressão dela é tranquila, como se tivesse muitos outros blocos semelhantes àquele, cobrindo muitos outros anos, até ao preciso momento em que assomamos na sua sala, invisíveis, para a ver pensar.

Talvez 2006 tenha sido um ano bom, cheio de viagens, livros e pessoas. Talvez ela o tenha retirado da estante porque sabia que nós a iríamos olhar, na esperança de saber através dos seus olhos tranquilos se ela é a pessoa que gostaria de ter sido, se fez tudo aquilo que um dia sonhou fazer, se existem mais coisas na sua vida de que se orgulha do que aquelas de que se arrepende...

A leitura não é imparcial. Apenas, a certeza de que faremos o nosso melhor. Porque afinal tudo o que importa é saber-se que se viveu plenamente a vida que se escolheu viver...

Feliz 2006!

domingo, dezembro 11, 2005

"Un jour, je rêvais que j'étais un papillon... Soudain, je m'éveillais... Maintenant, je ne sais pas si j'étais un homme rêvant qu'il était un papillon, ou si je suis maintenant un papillon rêvant qu'il est un homme."

Chuang-Tzu

domingo, dezembro 04, 2005

Perguntei-lhe se não se aborrecia nas longas horas que demora a correr uma maratona... Olhou-me com surpresa e respondeu: " Como é que alguém se pode aborrecer consigo mesmo? Sempre achei estranhas as pessoas que precisam de constante interferência do exterior para se distrairem de si próprias."

Interessante...

quarta-feira, novembro 30, 2005

domingo, novembro 27, 2005

As coisas que nos fazem bater o coração (1)

Estava a ler os "Périplos Imaginários", uma compilação das aguarelas de Hugo Pratt e lembrei-em! Hugo Pratt é, para quem não sabe, o criador de Corto Maltese. O pirata errante solitário e introspectivo, que seria o homem perfeito se não fosse apenas cores e água em papel branco. Enfim... não é de Corto Maltese que se trata este post, mas das coisas que fazem bater o coração. As aguarelas de Hugo Pratt são precisamente sobre isso... sobre o mar e mulheres bonitas, sobre as gaivotas e o deserto, sobre as pessoas... Estava portanto a ler o livro e lembrei-me...

Lembrei-me das coisas que me fazem bater o coração. Não propriamente das coisas, mas de como é importante sermos capazes de indicar as coisas que nos tocam tão profundamente que o nosso coração passa a bater de uma forma diferente. Não sou a primeira a falar sobre isto. O Brito fê-lo há muitos meses atrás...

Em todo o caso, a primeira coisa que me faz bater o coração é nova para mim: a NEVE. Descobri que tanto tempo depois ainda podemos sentir como uma criança, basta, tal como elas o são todos os dias, sermos expostos a uma situação enusitadamente nova. Cheguei ao escritório de olhos brilhantes e sorriso na voz, para lá das janelas a paisagem era de um branco encantado. As árvores e as coisas perdiam os contornos e a neve caía, silenciosamente, vestindo no seu silêncio o mundo de virgindade. É incrivelmente misterioso e belo!

As outras coisas (faltam 4!) seguirão mais tarde! Tenho que pensar...

E vocês... o que vos faz bater o coração?

sexta-feira, novembro 25, 2005

Os 5 melhores romances portugueses dos ultimos 30 anos

No Blog "da Literatura" fala-se dos 5 melhores romances portugueses dos últimos 30 anos. Fiquei assustada quando percebi que ainda me faltam ler uns quantos!!!

Para os curiosos, aqui fica a lista que resultou da votação de uns quantos blogs. Muitos ex-aequos a provar que a escolha não é fácil. A validade é a que é, mas sempre é um ponto de partida. Sugestões a acrescentar?

1. Memorial do Convento, José Saramago, 1982
2. Para Sempre, Vergílio Ferreira, 1983
3. (ex-aequo) Sinais de Fogo, Jorge de Sena, 1979
3. (ex-aequo) Alexandra Alpha, José Cardoso Pires, 1987
4. (ex-aequo) O que diz Molero, Dinis Machado, 1977
4. (ex-aequo) Lucialima, Maria Velho da Costa, 1983
4. (ex-aequo) Adeus, Princesa, Clara Pinto Correia, 1985
5. (ex-aequo) Os Cus de Judas, António Lobo Antunes, 1979
5. (ex-aequo) Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires, 1982
5. (ex-aequo) O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago, 1984
5. (ex-aequo) Manual dos Inquisidores, António Lobo Antunes, 1996

ESTÁ A NEVAR!!!!

quarta-feira, novembro 23, 2005

Leote, Leotte ou Liote

Lembrei-me de procurar na net o que dizia o grande mundo "internáutico" sobre mim própria. Que tal?



"De verde, com um braço armado de prata, movente do flanco esquerdo e com a mão de carnação, segurando pela orelha uma cabeça de leão de ouro, arrancada e ensanguentada."

terça-feira, novembro 22, 2005

High fidelity

Falaram no livro e eu não resisti a rever o filme. :-)

Para quem está na crise dos 20 e qualquer coisa, funciona como"placebo": inofensivo ainda que ajude a curar alguns males à custa de sorrisos e perspectiva. Às vezes é o que nos falta, certo?

Resolvi procurar na net algo mais sober o filme homónimo do livro de Nick Hornby e descobri, nem mais nem menos que o guião do filme... aqui fica o link para os que tiverem curiosos...

E um pequeno DELICIOSO excerto!!!!


ROB
(to camera)
Over nine million men in this
country have slept with ten or more
women. And do they all look like
Richard Gere? Are they all as rich
as Bill Gates? Charming as Oscar
Wilde? Hell no. Nothing to do
with any of that. Maybe fifty or
so have one or more of these
attributes, but that still
leaves...well, about nine million,
give or take fifty. And they're
just men. Regular guys.
We're just guys, because I, even I,
am a member of this exclusive, nine
million member club. In fact,
Marie is my seventeenth lover. "How
does he do it?" you ask. "He wears
bad sweaters, he's grumpy, he's
broke, he hangs out with the
Musical Moron Twins, and he gets to
go to bed with a recording artist
who looks like Susan Dey-slash-Meg
Ryan. What's going on? Listen up,
because I think I can explain, with
all modesty aside: I ask questions.
That's it. That's my secret. It
works precisely because that isn't
how you're supposed to do it, if
you listen to the collective male
wisdom. There are still enough
old-style, big-mouthed, egomaniacs
running around to make someone like
me appear to be refreshingly
different. If you can't hack this
simple strategy, there are some
women out there, of course, who
want to get pushed around, ignored
and mowed over, but do you really
want to be with them anyway?

Ouviram meninos?

sábado, novembro 19, 2005

O impensável





Tudo pronto... malas feitas e bilhete na mão. Um fim de semana fantástico em Paris pela frente!!! Então acontece o impensável... enquanto procurávamos os lugares numa carruagem apinhada de gente, ao darmos com pessoas nos nossos lugares, resolvemos dizer educadamente que desculpávamos mas...sabe como é... esses lugares são nossos... pode confirmar aqui no nosso bilhete. Sim, sim... a carruagem é esta e o lugar pois...como vê é aqui mesmo. E assim continuamos quando resolvemos comparar os nossos bilhetes. E então descobrimos o impensável. A carruagem era aquela, assim como os lugares. Mas a data, a data senhores... era de há um mês atrás!!!...

O comboio quase a partir e nós no cais desconsolados. Voltar para casa, desfazer as malas e ir jantar no mesmo sítio de sempre... E Paris, fica para a próxima.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Aahhhh!!!!!!

Deslumbramento de alguns... o primeiro nevão caiu ontem nas montanhas. Ao meio-dia a neve era, no entanto, já quase imperceptível. Apesar disso, este facto significa para muitos: os fim-de-semanas de ski, os fondues nos challets, as montanhas brancas, acordar as 7da manhã para ir esquiar. Enfim... o INVERNO!!!!

Está mesmo à porta: o termómetro do meu carro já marcou zero graus.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Just smile!



Calvin & Hobbes by "Bill Watterson"

sábado, novembro 12, 2005

Eternal sunshine of the spotless mind

Lembra-se do "Being John Malkovich"? e do "Adaptation"? Gostaram? Pois bem.., então não percam "Eternal sunshine of the spotless mind" com o Jim Carrey and Kate Winslet. Eu sei... os autores podem não parecer o mais prometedor, mas Jim Carrey consegue sair completamente do usual papel de engraçado idiota para um filme completamente inesperado. A provar que as histórias de amor podem ser contadas de muitas maneiras...

Para uma noite descontraída. Bom fim de semana.

segunda-feira, novembro 07, 2005

RHINO

Et voilá... a cidade de todos os capitalismos vibra sob o jugo das trombetas, baterias, saxofones. Desfilam pela rua, lenços na cabeça, bicicletas apodrecidas, cabelos longos e despenteados, óculos de massas, velhos casacos militares. Elas têm o cabelo pintado. Talvez usem uma camisola com riscas coloridas. Vê-se uma crista "démodé" aqui e ali.

A cidade de todos os capitalismos pára um pouco o seu afã de compras para os ver passar. Não gritam. As suas palavras estão na música que tocam, nos cartazes que empunham, nas máscaras que levam. São OKUPAS. No edifício ocupado criaram uma associação de apoio às artes e à cidade trazem o colorido que os fatos sérios, dos senhores sérios, que fazem os negócios sérios deste mundo não poderiam ter.

E naquele sábado (que poderia ter sido igual a tantos outros!)... o povo saiu à rua, a cidade parou para os ver passar e foi-se juntando ao longo do caminho para dançar ao som da música ou para simplesmente sentir o movimento. E afinal... a manifestação dos barbudos vermelhos foi uma festa de rua, com gente, muita gente, a provar que a cidade de todos os capitalismos é afinal uma aldeia cheia de vida!

Home is where the heart is

Em duas semanas, esta máxima chegou-me pela escrita de duas pessoas diferentes. Achei curioso. Minha pergunta da volta... não estará o nosso coração fragmentado e "em busca" até chegarmos a casa, seja ela onde e como for?

By the way... primeira noite verdadeiramente outonal. Depois das árvores douradas nos mais variados tons de vermelho, hoje chegou a vez do vento frio na cara, das mãos que se colocam nos bolsos à procura de calor, do cachecol que se lamenta ter deixado em casa. Vim a pé... o frio do ar foi um banho revigorante a lembrar que tudo tem um tempo e agora é tempo de Outono, de magusto e castanhas quentinhas.

domingo, novembro 06, 2005

Duas dicas musicais para a semana

Primeira Dica: Depeche Mode -> Playing the angel ...para revisitar o espírito dos anos 80!

Segunda Dica: Para os que gostam de música e querem saber mais visitem o blog Coisas do Puto e do Tipo. Descoberto nas minhas vadiagens pela net, vale a pena uma visita.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Twenty something

Hoje não resisto... palavras para quê... muitos de nós têm precisamente isso: 20 e qualquer coisa. Cliquem e digam lá se não vos soa familiar :-)

"Love ain’t the answer nor is work,
the truth eludes me so much it hurts.
But I’m still having fun and I guess that's the key,
I'm a twenty something and I'll keep being me."
Jamie Cullum - Twenty something

quinta-feira, novembro 03, 2005

Porque há vidas intemporais...

Imaginem o José António Saraiva. Conseguem imaginar? O velho senhor que dá lições de história a senhoras improváveis. Pois bem... agora imaginem o mesmo José António Saraiva na figura de uma jovem extrovertida, a rondar os seus 90 anos e a falar francês numa velocidade pouco saudável para tão avançada idade. Os gestos têm a mesma expressão algo exagerada, mas a voz, a jovialidade, a empolgamento com que fala e que se sente vibrar em cada palavra que diz, são uma espécie de espectáculo em si mesmo que nos mantém presos, sem noção do tempo que passa... "Vocês têm que se imaginar no estúdio do Delacroix, espadas e sabres por todo o lado e as concubinas e a bela Simone. Não imaginam o que ele dizia no seu diário sobre a bela Simone, que pousava para ele por oito francos. Têm que estar lá se querem compreender. Toda a arte está localizada num tempo. Se a querem compreender têm que compreender as preocupações dos artistas, conhecer os seus amigos, as cidades por onde caminhavam, as conturbações políticas, religiosas, as modas. É por isso que eu preciso de vos explicar tudo isto."

Belo, não é? A idade não tem faces ou rugas ou tempos. Mesmo se se fazem esboços em vez de se tirarem fotografias, mesmo se se conduz um carro apenas com duas mudanças ( a saber, 1a e 2a), mesmo se depois de insinuações menos próprias sobre Delacroix e a devassidão do seu estúdio se diz com o ar mais sério do mundo: "Meninas da sua idade não podem andar sozinhas a esta hora na rua". Porque o tempo era outro e estávamos outra vez no séc. XXI. No entanto, havia um brilho no olhos e uma empolgamento na voz que não enganava ninguém. A vida é intemporal e instintivamente reconhecemos aqueles que conseguem viver plenamente essa sua característica...

quarta-feira, novembro 02, 2005

Dieu a inventé le chat pour que l'homme ait un tigre à caresser à la maison

"Dieu a inventé le chat pour que l'homme ait un tigre à caresser à la maison" Victor Hugo

Hoje chegou finalmente o dia! Ela chegou com uns passinhos arrogantes e a presa na boca. O zzzzz constante não deixava muito espaço para enganos, o mesmo se passava com a cor esverdeada. Podia ter sido pior: um rato, talvez um passarinho mais desprecavido... Era apenas um pequeno gafanhoto. Foi um bom jantar. Disse-me ela enquanto ronronava às minhas pernas.

(Ggbbrrr... o que farei quando começar a ter cadáveres pela casa????)

segunda-feira, outubro 24, 2005

LE CRÉPUSCULE DU SOIR

Voici le soir charmant, ami du criminel;
ll vient comme un complice, à pas de loup: le ciel
Se ferme lentement comme une grande alcôve,
Et l'homme impatient se change en bête fauve.
O soir, aimable soir, désiré par celui
Dont les bras, sans mentir, peuvent dire: Aujourd'hui
Nous avons travaillé! - C'est le soir qui soulage
Les esprits que dévore une douleur sauvage,
Le savant obstiné dont le front s'alourdit,
Et l'ouvrier courbé qui regagne son lit.
Cependant des démons malsains dans l'atmosphère
S'éveillent lourdement, comme des gens d'affaire,
Et cognent en volant les volets et l'auvent.
A travers les lueurs que tourmente le vent
La Prostitution s'allume dans les rues;
Comme une fourmilière elle ouvre ses issues;
Partout elle se fraye un occulte chemin,
Ainsi que l'ennemi qui tente un coup de main;
Elle remue au sein de la cité de fange
Comme un ver qui dérobe à l'Homme ce qu'il mange.
On entend çà et là les cuisines siffler,
Les théâtres glapir, les orchestres ronfler;
Les tables d'hôte, dont le jeu fait les délices,
S'emplissent de catins et d'escrocs, leurs complices,
Et les voleurs, qui n'ont ni trêve ni merci,
Vont bientôt commencer leur travail, eux aussi,
Et forcer doucement les portes et les caisses
Pour vivre quelques jours et vêtir leurs maîtresses.

Recueille-toi, mon âme, en ce grave moment,
Et ferme ton oreille à ce rugissement.
C'est l'heure où les douleurs des malades s'aigrissent!
La sombre Nuit les prend à la gorge; ils finissent
Leur destinée et vont vers leur gouffre commun;
L'hôpital se remplit de leurs soupirs. - Plus d'un
Ne viendra plus chercher la soupe parfumée,
Au coin du feu, le soir, auprès d'une âme aimée.

Encore la plupart n'ont-ils jamais connu
La douceur du foyer et n'ont jamais vécu!

Charles Baudelaire (1852)


Aqui também a noite chegou. Lá fora talvez andem os ladrões e as prostitutas de Baudelaire acompanhados das pequenas multidões que passam alegres. Eu sou mais o obreiro cansado. O dia de hoje passou. Até amanhã.

sábado, outubro 22, 2005

Elementos mágicos

Ontem ao jantar falava-se de cheiros e da sua capacidade para instantâneamente nos levarem a locais e tempos distantes. Não consigo deixar de pensar que essa capacidade quase mágica é comum a todas as coisas que, por nos terem tocado se emiscuiram na nossa vida até serem parte de nós. Não interessa portanto, quanto tempo passe ou se ficámos ou partimos. Levamos essas sementes connosco e um dia quando menos esperamos a magia acontece e recuamos muito tempo para outros jantar, para amigos perdidos ou sempre presentes, para viagens ou simplesmente para um determinado estado de espírito. Às vezes (como aliás tudo o que é importante), o elemento mágico não passa de um detalhe, um pedaço de uma conversa, uma música, uma luz mais especial, que afinal não tinhamos esquecido e nem nos lembravamos das saudades que tínhamos.

Bom fim de semana.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Chegar a casa

Sabemos que estamos ambientados a um sítio quando depois de uns dias difíceis dizemos para nós, com um suspiro...já estou em casa... E quando olhamos à volta, verificamos que o sítio a que chamamos casa, não é mais do que aquele que até há bem pouco tempo era apenas um local estranho e frio.

Sabe bem chegar a casa... Sabe bem reconhecer no sítio que habitamos a nossa casa. Quantas casas, em toda esta dimensão afectiva e emocional poderemos ter na nossa vida? Será que é apenas o hábito que nos faz chamar casa ao local que habitamos? Será a sensação de protecção, as coisas, livros, papéis, desarrumação que nos são comuns? Será que o nosso conceito de casa muda com o tempo? Será mais que um espaço físico? Uma pessoa? Um estado de espírito? Poderá uma estação no meio da China Central ser a casa para o viajante que aí pernoita?

Não sei... mas hoje, suspirando, soube-me bem chegar a casa.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

domingo, outubro 16, 2005

Luminarium



Fantástico, não é? E na realidade é apenas uma tenda de ar, plástico e cor! Fiquem atentos à agenda dos Arquitectos do Ar, porque vale a pena. Ahh... e não se esqueçam da máquina fotográfica. Os resultados são imprevisíveis...

Boa semana!

terça-feira, outubro 11, 2005

(...)


Calvin & Hobbes by Bill Watterson

segunda-feira, outubro 10, 2005

Mistério (por Florbela Espanca)

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

domingo, outubro 09, 2005

COLORS 65

"Attention. Reading the pages of COLORS 65 may put you at serious risk depending on your location at the present time."

É assim que se inicia o número 65 da revista COLORS editada pela Benetton. Toda focada na problemática da liberdade de imprensa, vale a pena a leitura. Devolve-nos a perspectiva! Afinal, nós próprios e os países que nos rodeiam e que temos a tendência de tomar como exemplo, ainda temos um longo caminho a percorrer para assegurar que a liberdade de imprensa é um facto e não uma mera discussão teórica.

Por curiosidade... no ranking da liberdade de imprensa, Portugal encontra-se em 25º, atrás da Jamaica!, mas muito à frente de países como a Itália ou a Espanha (ambos em 39º). No final da lista encontra-se a Coreia do Norte.

Boa semana.

domingo, outubro 02, 2005

Cinemateca Portuguesa em 2003

Continuam as descobertas... desta feita um programa da Cinamateca Portuguesa, imagine-se de 2003... E de novo aquela viagem rápida no tempo até ao dia em que peguei no pequeno papel e o enfiei descuidadamente na mala de mão que trazia nesse dia. Mundos se passaram desde então. Hoje é tudo diferente! Por algum motivo a, a mala, nunca mais usada, passou todo este tempo esquecida mas acompanhando-me à medida que a vida me fazia mudar de um sítio para o outro. Uma nota do passado, para lembrar os nadas de que somos feitos.

Por curiosidade: em Fevereiro de 2003 passou na Cinamteca portuguesa o filme "Goodfellas" - Tudo bons rapazes, de Martin Scorcese. Se não viram, aqui fica uma sugestão descontraída para a semana.

sábado, outubro 01, 2005

Lembram-se?

Em todas as vidas, há sempre pequenos detalhes que ao darmos por eles nos arrancam sentimentos contraditórios. As despedidas são um deles. Reúnem em si a agitação da partida e a certeza reconfortante que há pessoas às quais nunca se diz adeus, apenas até à próxima. Essa evocação é tanto mais poderosa quando é feita através de papéis esquecidos numa caixa, ou quando qualquer coisa, qual madalena de Proust, nos faz recordar... Passaram seis meses. Lembram-se?

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama a tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está alem dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, 1916

sexta-feira, setembro 30, 2005

Há semanas assim!

For everything there is a season,
And a time for every matter under heaven:
A time to be born, and a time to die;
A time to plant, and a time to pluck up what is planted;
A time to kill, and a time to heal;
A time to break down, and a time to build up;
A time to weep, and a time to laugh;
A time to mourn, and a time to dance;
A time to throw away stones, and a time to gather stones together;
A time to embrace, And a time to refrain from embracing;
A time to seek, and a time to lose;
A time to keep, and a time to throw away;
A time to tear, and a time to sew;
A time to keep silence, and a time to speak;
A time to love, and a time to hate,
A time for war, and a time for peace.

Ecclesiastes 3:1-8


Amanhã é sábado! Boa noite.

domingo, setembro 25, 2005

Elogio aos Domingos

Os Domingos são talvez, excluindo as 6as feiras, os melhores dias da semana. São assim... como que cheios de tempo. Devolvem-nos o ritmo que a semana não nos concede. Os Domingos são bons porque podemos ficar na cama até à hora de almoço. No sábado há sempre uma infinidade de coisas para fazer: há que levantar cedo, ir às compras, o encontro com o amigo x e o jantar com a amiga Y antes da ida ao teatro. Ao Domingo não!... Acordamos e tomamos consciência à medida que os móveis tomam forma perante os nossos olhos de que não há planos e podemos ficar ainda, até que a preguiça do nosso corpo nos permita, ficar estendidos entre os lençóis. E depois, saimos para comprar o jornal trazendo no caminho pão ainda morno.

Ao Domingo todas as preguiças são permitidas. Se estiver a chover lá fora, um bom filme (de preferência antigo e mil vezes revisto!) em conjunto com uma chávena de chá fazem as delícias dos domingueiros convictos. Pelo contrário, se estiver Sol, abre-se todo um conjunto de possibilidades que vão desde uma tarde pachorrenta numa esplanada a ler o jornal; a um passeio de bicicleta, um cinema, ou...

Amanhã é 2a. O despertador tocará impiedosamente cedo pela manhã. Os ritmos irão impôr-se novamente. Do Domingo que agora termina guarda-se a memória do tempo dedicado ao sonho e aos pequenos luxos que nos esquecemos de dar a nós próprios durante todos os outros dias, como um chá numa esplanada a ver as folhas já castanhas das árvores sobranceiras voarem com o vento.

Boa semana!

sábado, setembro 24, 2005

Loucos...

Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava
a bica, ao melhor dos seus ouvintes

As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao sorrir agradecia

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar

Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal

Compramos a entrada p'ra sessão
Pra ver tal personagem no écran
O rosto maltratado era a razão
De ele não aparecer pela manhã

Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia

E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueam
Sentado la continua a cravar
Beijinhos as meninas que passeiam.

Ala dos Namorados (Música: João Gil, Letra: João Monge)

sexta-feira, setembro 23, 2005

Bom fim de semana!



Não fiquem em casa!

Do outro lado


"The false mirror" (1928), Magritte

Para aquelas vezes em que vemos o mundo refletido em nós.


PS - O MoMA em NY resolveu colocar a sua exposição on-line. Vale a pena espreitar o site e guardar a obra do vosso pintor/ fotógrafo/ escultor à distância de um clic e sem viagem de avião :-)

quinta-feira, setembro 22, 2005

Portrait of a turquish family

"Portrait of a turkish family" de Irfan Orga é o livro ideal para quem quer aprender um pouco mais sobre o que foi viver em Istambul ao longo do século XX. É um livro feito dos pequenos detalhes de que a vida de uma criança é feita. Delicioso, lê-se de um trago. O escritor é originário de Istambul, ainda que tenha vivido grande parte da sua vida adulta exilado em Londres. Foi em inglês que o livro foi escrito, não deixando, apesar de tudo, de exalar todos os ritmos arábicos.

A história de como este livro me veio parar às mãos é interessante.Foi-me aconselhado numa livraria na baixa da cidade chamada simplesmente "Bookstore". Entrei, atraída pelos livros em inglês sobre a turquia. Não sabia bem o que ía à procura. Sabia que queria entender melhor a história e o ambiente da cidade. A rapariga aconselhou-mo dizendo que eu ia adorar. Perante o meu ar incrédulo, disse-me. "Não acredita? Pois olhe todos os postais que eu recebi de outras pessoas a quem o aconselhei." Os postais eram um pouco de todo o mundo e todos eram unânimes dos elogios que faziam. Resolvi arriscar. Não me arrenpendi. Mas não escrevi nenhum postal. Fui-lho dizer pessoalmente antes de deixar a cidade.

Se um dia forem a Istambul, coloquem este livro na vossa bagagem. Ou melhor... vão à "Bookstore" e falem um bocadinho com a rapariga que lá está. Verão os olhos dela a brilhar a falar da sua cidade e do seu país e ficarão com vontade de ler mais e compreender melhor. Leiam o livro nos intervalos da vossa vagabundeagem pela cidade num dos muitos tea-garden. Acompanhado, claro está de um chá turco açucarado, servido num copo de vidro transparente com a forma de uma túlipa delicada. Leiam-no e tentem imaginar, as mulheres discretas e veladas a caminhar pela cidade, os vendedores que apregoavam um pouco de tudo pelas esquinas, os pobres e os mendigos, as mesquitas cheias, as festas da circuncisão, as casas de madeira e o Bósforo...

Boa viagem.

terça-feira, setembro 20, 2005

MEC

Não resisti... depois do "Elogio ao Amor" me ter chegado às mãos, encontrei o site do Miguel Esteve Cardoso. Caótico, mas delicioso. Aparentemente um punhado de drogas para o mau humor. Aconselho uma vista de olhos. Lembrou-me vagamente o Almada. Claro que muitos anos depois e com muitas asneiras à mistura. É bom saber!

http://www.pastilhas.com

Boa noite!

Elogio ao Amor

Arriscando-me a ser lamechas, não resisti...

Elogio ao Amor, por Miguel Esteves Cardoso

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro.
Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
(...) Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso - Expresso )

segunda-feira, setembro 19, 2005

Paradoxal



"-Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Braganza, pontualmente às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!...
-Espera!- exclamou Ega.- Lá vem um "americano", ainda o apanhamos.
-Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, is dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
-Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
-Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do "americano", ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega um esperança, outro esforço:
-Ainda o apanhamos!
-Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então para apanhar o "americano", os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa dos Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

Eça de Queirós, Os Maias

domingo, setembro 18, 2005

Saudades de Lisboa


Lisbon Revisited

[...]

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos

domingo, setembro 11, 2005

Istambul - A cidade das fronteiras



Istambul é uma cidade que se encontra no limiar de muitas fronteiras. É isso que lhe dá o gosto, o colorido e o fascínio que ao longo de séculos encantou os viajantes que nela se refugiaram.

Dizem que Istambul é a única cidade do mundo que cruza dois continentes... De um lado a Europa, do outro lado, muito perto, a Ásia. Há pessoas que vivem num continente, trabalham no outro. As influências estão por todo o lado... Istambul é uma cidade que se procura aproximar da Europa dando sinais de abertura e desenvolvimento e ao mesmo tempo está repleta do cheiro, umas vezes acre, outras doce, das suas especiarias. Os transportes públicos são modernos mas os velhos sentam-se ainda à porta das suas pequenas lojas enquanto jogam gamão e bebem chá ininterruptamente. Os homens nunca chegaram a perder a sua faceta de negociantes de outros tempo, numa cidade em que apesar da europeização nenhum preço está marcado. São dois continentes que se cruzam ali mesmo, de cada lado desse Bósforo que durante milénios viu invasões e imperadores a nascerem e a caírem.

Porque Istambul é uma cidade que está também na fronteira da história. De um ponto alto, quando o barulho dos carros se torna um som distante e a nossa vista abarca a silhueta daquela cidade coroada de orgulhosos minaretes que a nós, como a tantos outros, nos obrigam a erguer os olhos para o céu, não é difícil imaginar Ali Baba e os sultões das 1001 noites. Caminhando pelo palácio, os olhos deslumbram-se com a riqueza e elegância dos mármores coloridos, a dimensão do harém, a vista das suas varandas e jardins, a piscina de mármore branco, os tectos cobertos de delicados azulejos, as paredes rendilhadas, trabalhadas pelos mais habilidosos artistas daquele tempo. É fácil imaginar génios da lâmpada e tapetes voadores. É fácil imaginar sultões tiranos nas suas calças em balão, com as suas 300 concubinas escolhidas entre as mais belas mulheres do império e encerradas em salas de ouro e mármore. Mas isso são sonhos que atravessam a mente quando a deixamos vaguear pelas formas redondas e antigas da cidade. Do outro lado da rua passam carros perigosamente velozes, a poluição é um problema como no império bizantino terão sido as invasões bárbaras. A união Europeia é um sonho e uma necessidade, mas os abusos dos direitos humano são outra realidade. O capitalismo desenfreado e as multinacionais cobrem a paisagem e tornam um pouquinho menos mágica a “Blue Mosque” saturada pela pesada pronúncia americana que ressoa por todos os cantos, como em outros tempos o fizeram as preces. É como se a história desse uma oportunidade a cada povo de ser verdadeiramente grandioso. Istambul teve mais do que a sua quota parte de grandiosidade tendo sido a capital de impérios durante milénios. Hoje vive decadente entre os seus palácios, as suas mesquitas e as ordes de turistas, à procura da sua identidade.

Istambul é ainda uma cidade que balança entre muitas religiões diferentes. Muçulmana por certo, mas também judia, católica e muito mais. As cabeças cobertas das suas mulheres revelam o facto que a Turquia teve como religião oficial o islamismo até meados do século passado. Das mesquitas soam ainda, 5 vezes por dias, as leituras árabes do Corão que chamam os fiéis para a oração do dia. Leituras que soam aos viajantes como música exótica e embalante. À austeridade do islamismo contrapõem-se outros fiéis, sem fez ou véus. Alguém me disse: “Nós não somos como os Árabes, partilhamos a mesma religião mas ela é para ser vivida como cada um sentir que a deve viver”. E assim é em Istambul, muita gente e muitos deuses caminham por aquelas ruas.

E por fim... Istambul é uma cidade na fronteira do sonho e da realidade. A vista dos minaretes da cidade cobertos pelo nevoeiro da madrugada, fazem-nos questionar se será apenas um sonho ou se estarão mesmo ali.

terça-feira, setembro 06, 2005

Vontade de sonhar



" "Onde estás?", pergunta-me ela. "Na torre mais alta de Yedicule? Que vês? - Toda a cidade, todo o mar, toda a terra..." Tantas simetrias, tantas forças contrárias, oscilações entre dois extremos, tanto caos, tudo enredado neste sobrevoo. Como se todas as idades do homem, os seus baixos e altos, se tivessem encontrado ali, todas juntas, no mesmo momento, e todas igualmente vivas, a Ásia e a Europa, frente a frente; como se o mundo se apoiasse neste ponto de equilíbrio sempre em ruptura, num silêncio de filme mudo."

Daniel Rondeau, "Istambul" (Publicações Europa-América)

DÁ VONTADE DE SONHAR, NÃO DÁ?

segunda-feira, setembro 05, 2005

Procedimento habitual

"ESTRAGON - O que é que nós lhe pedimos exactamente?
VLADIMIR - Não estavas lá?
ESTRAGON - Não devia estar a ouvir.
VLADIMIR - Oh... nada de concreto.
ESTRAGON - Uma espécie de oração.
VLADIMIR - Precisamente.
ESTRAGON - Uma súplica vaga.
VLADIMIR - Exactamente.
ESTRAGON - E o que é que ele disse?
VLADIMIR - Que logo via.
ESTRAGON - Que não prometia nada.
VLADIMIR - Que tinha que pensar no assunto.
ESTRAGON - No sossego da sua casa.
VLADIMIR - Consultar a sua família.
ESTRAGON - Os amigos.
VLADIMIR - Os agentes.
ESTRAGON - Os correspondentes.
VLADIMIR - Os livros.
ESTRAGON - A conta bancária.
VLADIMIR - Antes de tomar uma decisão.
ESTRAGON - É o procedimento habitual.
VLADIMIR - É, não é?
ESTRAGON - Acho que sim.
VLADIMIR - Eu também."

Samuel Beckett
À espera de Godot

domingo, setembro 04, 2005

A dignidade do homem

"We have given you, O Adam, no visage proper to yourself, nor endowment properly your own, in order that whatever place, whatever form, whatever gifts you may, with premeditation, select, these same you may have and possess through your own judgement and decision. The nature of all other creatures is defined and restricted within laws which We have laid down; you, by contrast, impeded by no such restrictions, may, by your own free will, to whose custody We have assigned you, trace for yourself the lineaments of your own nature. I have placed you at the very center of the world, so that from that vantage point you may with greater ease glance round about you on all that the world contains. We have made you a creature neither of heaven nor of earth, neither mortal nor immortal, in order that you may, as the free and proud shaper of your own being, fashion yourself in the form you may prefer. It will be in your power to descend to the lower, brutish forms of life; you will be able, through your own decision, to rise again to the superior orders whose life is divine.''

Pico della Mirandola em "Oration on the dignity of Man"

Bom dia!




Henry Cartier-Bresson

sábado, setembro 03, 2005

À bientôt

E há afinidades que nascem assim: sem que as procuremos e sem que as esperemos. É bom saber que no mundo há gente pela qual vale a pena parar e que vale a pena conhecer. Merci, K. J'espère de te rencontrer un jour. À bientôt.

"Noir dans le noir. Plus noir que le noir. Plus noir que le combat de nègres à minuit dans une cave, Je nái pas besoin, pour disparaître, de me cacher; je cesse seulement d'exister, et j'éteins mes phares. (...) C'est de la magie? Bien sûr. Croyez-vous qu'on soit noir à ce point, sans être sorcier?"

Colette, Autres Bêtes, "Chats de Paris"